sexta-feira, 19 de junho de 2026
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Advogadas de alunas da UFV criticam estratégia de defesa do professor Edson

Advogadas de alunas da UFV criticam estratégia de defesa do professor Edson

As advogadas das 11 alunas que denunciaram o professor da UFV, Edson Martins, se posicionaram em nota exclusiva à Montanhesa; Edson é acusado por abuso de poder, violência física, assédio moral e sexual e até estupro

As advogadas de defesa das onze estudantes que denunciaram o professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Edson Martins, se pronunciaram sobre o crime, em nota exclusiva à Rádio Montanhesa. Edson é acusado por alunas e ex-alunas de abuso de poder, violência física, assédio moral e sexual e até estupro.

As advogadas de defesa das vítimas, Lise Póvoa e Ana Carolina Fleury, em entrevista à RecordTV. Imagem/Reprodução RecordTV

As três advogadas – Lise Póvoa, Ana Carolina Fleury e Veruska Schmidt – integram o escritório Póvoa, Schmidt & Fleury e declararam que a defesa de Edson usa estratégia fundamentada em desqualificar as vítimas e/ou retirar a autonomia delas, o que, segundo elas, é uma prática muito comum em casos de assédio contra mulheres e meninas. Para as advogadas, isso se deu pelo fato da defesa do acusado ter questionado a alegação das denúncias, além de apontar as vítimas como “massa de manobra” e não sujeitas de seu próprio direito e de suas próprias narrativas.

Confira entrevista concedida à Montanhesa pela Marinês Alchieri, advogada de defesa do professor Edson Martins:

Medo de denunciar é frequente

São muitos os motivos que impedem as mulheres de denunciar casos de abuso no Brasil e, para além disso, há também a dificuldade em dar força à denúncia.

Segundo a defesa das vítimas, isso permeia o caso em questão, pois envolve a fragilidade das vítimas, o medo perante o professor – que ocupa funções profissionais de prestígio – e, também, o receio do julgamento social. As advogadas afirmam que seguem fortalecendo suas clientes.

Trechos retirados da nota enviada pela defesa das estudantes à Montanhesa.

Nas hipóteses de que o professor use de seu cargo para obter algum tipo de vantagem, a defesa das estudantes afirmam que o Superior Tribunal de Justiça entende que “o crime de assédio sexual e moral pode ser caracterizado no caso de constrangimento cometido por professores contra alunas (os)”.

Em entrevista à Montanhesa, a advogada que defende Edson, Marinês Alchieri, questionou o comportamento das alunas nos depoimentos concedidos por elas. Na contramão da defesa do acusado, as advogadas das estudantes ressaltaram que muitas mulheres, ao denunciar, enfrentam muitos estereótipos, e esses podem influenciar de forma negativa a repercussão judicial e social do caso.

“Muitas mulheres apenas têm seus relatos validados somente se corresponderem ao comportamento “ideal de vítima”, o “parecer uma vítima”, caso contrário, são retratadas como mentirosas, vingativas e loucas, passando de vítimas a culpadas instantaneamente. Esses e outros estereótipos associados às denunciantes devem ser superados, uma vez que o único intuito dessa estratégia é servir como atalho para confundir a opinião pública e a tomada de decisões em casos concretos”, disse a defesa das estudantes.

Confira a nota emitida pela defesa das estudantes na íntegra:

A Instituição de ensino

As advogadas de defesa das alunas disseram estar confiantes nas Instituições, em especial à Universidade Federal de Viçosa (UFV), e, segundo elas, estão crentes no trabalho que UFV vem desempenhando. Elas reforçaram ainda que trabalham ” por uma universidade pública de qualidade, segura e livre de qualquer tipo de assédio”.

“Reforçamos a importância das instituições públicas, do sistema de justiça e da imprensa como instrumentos de acolhimento e informação e jamais de humilhação ou exposição desnecessária. Os órgãos devem apurar a responsabilidade dos agentes públicos envolvidos, inclusive de quem se omitiu. Esperamos confiantes nas Instituições, em especial a Universidade Federal de Viçosa, pois acreditamos no trabalho que vem sendo realizado”, ressaltou a defesa das estudantes.

A Universidade Federal de Viçosa encaminhou a denúncia ao Ministério Público Federal em 29 de outubro de 2019. Imagem/UFV

Vale ressaltar que a UFV emitiu uma nota sobre o caso, em 1/10, posteriormente à repercussão da matéria realizada pela Revista Veja. A Universidade afirmou que o processo administrativo disciplinar tem “sigilo legal” e que a apuração está sendo realizada com “máximo rigor e seriedade”. O caso corre desde 2019 na Instituição, que afirmou ter enviado a denúncia naquele mesmo ao Ministério Público.

“A UFV se dirige à comunidade universitária para prestar informações e esclarecimentos sobre a notícia, divulgada na revista Veja, na última sexta-feira (30), de um docente acusado de crimes sexuais por alunas e ex-alunas da instituição. A Universidade esclarece que o processo administrativo disciplinar que apura as denúncias contra o professor está em andamento no âmbito da Unidade Seccional de Correição da UFV, encontrando-se protegido pelo sigilo legal. As informações dos autos apresentadas pela revista não foram transmitidas pela Universidade, que apura o caso com o máximo rigor e seriedade. A comissão responsável finalizou a fase de instrução processual e, em breve, após análise das provas que foram reunidas e dos argumentos da defesa, indicará se haverá ou não o indiciamento. Além disso, a UFV encaminhou a denúncia ao Ministério Público Federal em 29 de outubro de 2019, assim que a Reitoria teve ciência do parecer resultante da sindicância que precedeu o processo administrativo disciplinar. A UFV jamais se omitirá diante da necessidade de apuração e investigação de quaisquer fatos que, nas dependências dos campi universitários, atentem contra os princípios que regem a gestão pública. Dessa forma, não nos desviaremos das condutas inerentes à boa governança, dentre as quais é necessário destacar o absoluto respeito aos princípios constitucionais da ampla defesa e do contraditório, pois sem o devido processo legal não pode existir democracia.”

NOTA EMITIDA PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA

Relembre o caso

O caso foi revelado por uma matéria da Revista Veja, publicada em 30 de setembro, com o relato de diversas vítimas que apontam o professor do Departamento de Letras da UFV, Edson Ferreira Martins, de 43 anos, como autor de crimes sexuais, abuso de poder, violências física e moral, assédio sexual e estupro. 

Edson Martins, 43 anos, acusado por 11 mulheres de abuso de poder, violência física, assédio moral, assédio sexual e estupro. Imagem/Reprodução

A matéria revela que o caso, até então sigiloso desde 2019, foi inicialmente investigado pela UFV através de uma sindicância interna, em seguida em um processo administrativo, mas diante dos fortes indícios de crimes o processo foi encaminhado ao Ministério Público Federal, onde corre em segredo de justiça.

Segundo a matéria, a Veja teve acesso a mais de 870 páginas com relatos de 11 denunciantes do professor, entre alunas e ex-alunas, que relatam os abusos com riqueza de detalhes. Em um dos relatos, uma mulher de 28 anos relata que foi embriagada e estuprada pelo professor.