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Levantamento aponta falta de hidroxicloroquina em farmácias de Viçosa e região

Em pesquisa realizada em 50 estabelecimentos comerciais de São João del Rei, Viçosa, Muriaé, Barbacena e Juiz de Fora, medicamento para pacientes com doenças reumáticas não consta nos estoques ou chega com grande dificuldade às prateleiras. Reportagem procurou laboratórios e a presidente da Sociedade Mineira de Reumatologia para entender a situação.

Desde o início de julho, farmácias e drogarias das principais cidades da Zona da Mata e Campo das Vertentes enfrentam escassez da hidroxicloroquina e cloroquina.

A falta do medicamento coloca em risco o tratamento contínuo de pacientes com doenças reumáticas, como lúpus e artrite reumatóide. A informação foi constatada após um levantamento junto a 50 farmácias de Juiz de Fora, Muriaé, Barbacena, São João del Rei e Viçosa.

A situação é de conhecimento da Sociedade Mineira de Reumatologia, como explicou a médica e presidente da entidade, Viviane Angelina de Souza. “Desde o início da pandemia de Covid-19 no Brasil ocorreu uma busca intensa para compra do medicamento – que não tem eficácia científica comprovada contra o novo coronavírus,” explicou.

De acordo com a especialista, a relação da cloroquina com o coronavírus impactou diretamente os pacientes reumatológicos, que precisam fazer uso contínuo e que são portadores de doenças contra as quais a substância tem eficácia comprovada de tratamento.

A reportagem entrou em contato com os estabelecimentos comerciais entre os dias 9 e 17 de julho. Das 50 farmácias consultadas, apenas cinco tinham o Reuquinol 400mg, um dos nomes comerciais da hidroxicloroquina.

Em alguns municípios, como Muriaé, a substância ou similares não foram encontrados nas 10 principais farmácias da cidade, como foi relatado também por Aline Gonçalves Tureta Govea, que iniciou o tratamento com hidroxicloroquina e precisou adquirir o medicamento fora do estado.

A reportagem também procurou os laboratórios fabricantes e as maiores redes de drogarias da região. Confira.

Levantamento

No levantamento exclusivo feito durante oito dias, a reportagem ligou para 50 farmácias em busca do sulfato de hidroxicloroquina de 400 mg, nas versões Reuquinol, do laboratório Aspen, Plaquinol, do laboratório Sanofi e a versão genérica do medicamento, produzida pela EMS.

Em Juiz de Fora, das 18 principais farmácias e redes de drogaria, o Reuquinol foi encontrado em três, e o Plaquinol, em apenas uma.

Os preços variavam entre R$ 71 e R$ 99. Em alguns estabelecimentos, só havia uma caixa do remédio. Funcionários relataram que não recebiam a medicação há mais de um mês e que tentavam contato com o Centro de Distribuição para comprar mais lotes, mas não havia resposta ou previsão de receber a hidroxicloroquina.

Em Muriaé e São João del Rei, em nenhuma das 16 farmácias consultadas foi encontrada a hidroxicloroquina.

Farmacêuticos e gerentes dos estabelecimentos, que não quiseram ser identificados, contaram que foram informados pelos representantes de laboratórios que a venda da medicação foi destinada aos hospitais.

Em Viçosa e Barbacena, nas 16 drogarias consultadas, o medicamento foi encontrado em apenas uma farmácia de cada cidade.

Em nota, a assessoria de comunicação da Drogasil não respondeu aos questionamentos e informou por nota que “infelizmente não vai conseguir ajudar dessa vez”.

A assessoria da Pague Menos também informou por nota que não poderia responder às questões sobre a falta da hidroxicloroquina e que “esse tipo de informação é considerado de caráter estratégico pela empresa, e por isso são dados sigilosos e que não são compartilhados”.

A reportagem procurou a assessoria de comunicação da Drogaria Pacheco por diversas vezes e não obteve retorno até a publicação desta reportagem.

Em nota, a EMS, laboratório da versão genérica do medicamento, explicou que começou a produzir o sulfato de hidroxicloroquina em setembro de 2019.

Até fevereiro, havia fabricado cerca de 3,96 milhões de comprimidos. Em março e abril, foram mais de 2,75 milhões de comprimidos produzidos.

Em junho, um novo lote de 1,35 milhão de comprimidos foi produzido e disponibilizado para o mercado. O laboratório afirmou que esse é o mesmo volume de produção previsto para julho, agosto e setembro.

A EMS reforçou que os medicamentos foram “distribuídos tanto nas farmácias especializadas, que têm controle de quem faz tratamento contínuo com o medicamento, quanto em hospitais.”

O laboratório informou que para “pacientes que necessitam de uso contínuo da hidroxicloroquina para indicações aprovadas para o tratamento de malária, artrite reumatoide ou lúpus, respaldadas por prescrição médica, a EMS tem realizado um atendimento especial para tentar auxiliar na aquisição do medicamento, por meio do seu SAC: 0800-0191914, que atende de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h”.

A Sanofi, que é a fabricante do Plaquinol, informou por meio de nota que “tem como prioridade a segurança e o atendimento aos pacientes atualmente tratados sob as indicações aprovadas de nosso medicamento Plaquinol® (hidroxicloroquina): doenças reumatológicas e dermatológicas crônicas, além de malária e lúpus.”

O laboratório afirmou que “continua totalmente comprometido em garantir o fornecimento de hidroxicloroquina para essas indicações, com base em nossa demanda histórica”.

‘É uma falta de respeito’

Aline Gonçalves Tureta Govea tem 35 anos e é moradora de Muriaé. Há pouco mais de um mês, iniciou um tratamento com hidroxicloroquina por orientação médica.

A surpresa veio logo na primeira compra, quando não encontrou o medicamento nas farmácias que pesquisou na cidade.

A solução foi recorrer a amigos e parentes que moram em outras cidades para conseguir o remédio.

“Em todos os lugares que eu ligava, não achava, falavam que estava em falta. Só uma drogaria disse que não tinha no dia, mas que iria receber. Eles ficaram de entrar em contato e realmente entraram. Minha mãe entrou em contato com amigas em Juiz de Fora, e um primo meu que tem farmácia no Rio de Janeiro trouxe para mim também, para eu não correr o risco de ficar sem o medicamento.”

Após ter dificuldade de encontrar hidroxicloroquina, Aline pediu compreensão das pessoas que correram às farmácias durante a pandemia para comprar o remédio sem indicação médica.

“O pessoal tem que ter consciência. Nessa pandemia um monte de gente ouviu falar da cloroquina como tratamento para Covid-19 e foi todo mundo para farmácia comprar sem necessidade nenhuma, sem saber como é usado, aleatoriamente. Faltar medicamento nas farmácias é uma falta de respeito, porque há doenças reumatológicas e esse remédio é parte do tratamento. É uma falta de respeito”.

Para que a cloroquina é indicada?

Imagem mostra cloroquina manipulada em laboratório — Foto: Dirceu Portugal/Fotoarena/Estadão Conteúdo

Imagem mostra cloroquina manipulada em laboratório — Foto: Dirceu Portugal/Fotoarena/Estadão Conteúdo

Segundo a médica e presidente da Sociedade Mineira de Reumatologia, Viviane Angelina de Souza, o tratamento com a hidroxicloroquina ou cloroquina tem eficácia para pacientes com lúpus eritematoso sistêmico, artrite reumatóide e outras doenças reumáticas.

“A cloroquina é uma medicação da classe dos antimaláricos, utilizados desde a década de 1950, inicialmente para tratamento e prevenção da malária. Posteriormente, descobriu-se que tinha efeitos anti-inflamatórios importantes e de modulação sobre o sistema imunológico e passou a ser utilizada no lúpus com excelentes respostas. É fundamental para tratamento de pacientes com lúpus e outras doenças reumáticas, como a artrite reumatóide. Então, além desses efeitos, traz diversos benefícios para o paciente com lúpus, porque ela atua sobre o perfil lipídico no lúpus, controla os níveis de glicose, de colesterol, ajuda também a prevenir fenômenos tromboembólicos”, explicou.

Viviane explicou que desde o início da pandemia de Covid-19, quando foi demonstrado in vitro que a cloroquina poderia ter efeitos antivirais sobre o coronavírus, o remédio sumiu rapidamente das prateleiras e passou a ser necessário o uso de receita para a compra do medicamento.

“Foi demonstrado, em animais de laboratório, que a cloroquina poderia, em fases iniciais, relacionar-se com a redução da replicação viral. Houve uma grande procura indiscriminada pela população em geral para compra do medicamento e isso foi feito totalmente sem fundamento científico. Não existem, até o momento, estudos que demonstrem a eficácia da cloroquina em pacientes com coronavírus e muito menos se utilizada em casos de prevenção”, esclareceu a médica.

Nesta última sexta-feira (17), a Organização Mundial da Saúde (OMS) suspendeu pela segunda vez testes com hidroxicloroquina contra a Covid-19. Segundo a entidade, as evidências científicas apontam que a substância não reduz a mortalidade em pacientes internados com a doença.

Viviane sinalizou que a relação da cloroquina com o coronavírus impactou diretamente os pacientes reumatológicos, que precisam fazer uso contínuo e que são portadores de doenças contra as quais a substância tem eficácia comprovada de tratamento.

“Antes, os pacientes não precisavam de receita. Agora, elas ficam retidas. Com essa pandemia e essa dificuldade de realização de consultas, porque muitos médicos não estão atendendo, os pacientes não conseguem a receita, principalmente no Sistema Único de Saúde (SUS)”, relatou.

A presidente da Sociedade Mineira de Reumatologia explicou que a entidade está mapeando a falta da hidroxicloroquina no Estado através de relatos de médicos reumatologistas, pacientes e associações e grupos de apoio.

Para os pacientes que têm indicação ou realizam tratamento com a cloroquina e não a encontram, a alternativa apresentada por Viviane é a manipulação do medicamento. “Precisa ser de uma farmácia confiável, uma manipulação de boa procedência, para o paciente poder manter o tratamento de qualidade”.

Fonte: G1.

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