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Diversidade

Depois da quarentena, crianças podem se desentender no reencontro, dizem especialistas

Isolamento pode trazer sensação de que a intimidade com os amigos se perdeu. Elas vão precisar reaprender a viver em comunidade e a lidar com frustrações.

Depois de tantos meses de isolamento social, por causa da pandemia, como será o reencontro das crianças? Na escola, no parquinho ou na casa de alguém, pode ser que o momento tão esperado de matar as saudades não seja exatamente poético. Desconfortos, falta de intimidade e pequenos conflitos provavelmente vão ocorrer.

É o que a psicóloga Rita Calegari e a educadora parental Lua Barros afirmaram na última sexta-feira (14), durante a live “Agora é Assim”, no G1. Elas debateram o que mudará na infância após a pandemia do novo coronavírus.

“A gente diz que não vê a hora de o filho voltar para a escola. Mas vai ser um processo de readaptação para as crianças. Estar dentro de casa faz com que elas lidem menos com frustrações naturais do ambiente escolar”, explica Barros. “Esse nível de tolerância para a frustração está menor, elas estão mais impacientes, bagunçadas emocionalmente”, diz.

Especialistas comentam sobre os reencontros após a pandemia

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Especialistas comentam sobre os reencontros após a pandemia

Calegari reforça que o período prolongado de isolamento deixa as crianças desacostumadas a essa convivência com o coletivo. “Durante a quarentena, se estabeleceram rotinas muito individualizadas nas famílias. Quando volto para a escola ou para o parque, volto também para uma relação comunitária”, explica Calegari. “Vai ter a questão do limite, de saber esperar e de se organizar em grupo.”

Um exemplo: em casa, durante a pandemia, muitos alunos assistiam às aulas virtuais ao lado dos pais. Na retomada das atividades presenciais, a atenção exclusiva de um adulto se perde – a criança dividirá o tempo do professor com todos os colegas da turma.

“Essa transição deve causar um estranhamento. Por mais que a gente esteja cansado e querendo voltar à vida normal, pode ser um choque retomar tudo”, diz a psicóloga.

Perda de intimidade

As especialistas acrescentam também que o distanciamento dos amigos, durante a quarentena, pode trazer uma impressão de “perda de intimidade”. “A gente tem a sensação de que deu uma pausa nas nossas vidas em março, aí é só dar o play que tudo vai continuar daquele ponto – as amizades, os relacionamentos”, afirma Calegari. “Mas foi um período longo, que modificou e continua modificando as pessoas.”

Lua Barros conta um exemplo vivido recentemente. Seu filho mais velho, João, de 12 anos, disse que estava muito angustiado. Para aliviar o sofrimento do pré-adolescente, a mãe convidou um amigo dele, que estava em isolamento, para passar o dia no sítio onde a família mora, na zona rural de Brasília.

“Eles brincaram juntos, depois levei o menino para a casa dele. À noite, João me disse: ‘foi muito estranho, mãe’”, conta Barros. “Ficou aquela saia justa, eu disse a ele que era natural, que vamos tentar de novo mais para frente. A gente tá muito ‘só a gente’, então ir para o mundo é desconfortável. Isso me acordou para o desconforto da volta”, completa. As chamadas em vídeo ou as mensagens, segundo a educadora, não garantem a preservação da intimidade.

Ações controladas

Se o reencontro entre crianças ocorrer antes de termos a vacina contra a Covid-19, haverá ainda mais uma dificuldade: tentar controlar o comportamento das mais novas.

“São muitas regras para elas: vão estar em um cenário maravilhoso, podem brincar com espaço… mas vai ter alguém dizendo ‘isso não pode’, ‘fica longe’, ‘não põe a mão’. Pode ser bastante estressante para as crianças menores. Abaixo dos cinco anos, elas têm muito mais dificuldade de conter reações autênticas e espontâneas”, diz Rita Calegari. “E aí, a expectativa de ser um momento de diversão pode gerar frustração.”

Fonte:G1.

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