terça-feira, 6 de outubro de 2026
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Pesquisadores da UFV desenvolvem bateria de íons de lítio com derivado da madeira

Pesquisadores da UFV desenvolvem bateria de íons de lítio com derivado da madeira

Estudo utilizou lignina nos dois eletrodos da bateria e apresentou estabilidade durante 300 ciclos de carga e descarga

Pesquisadores do Departamento de Química da Universidade Federal de Viçosa (UFV) desenvolveram uma tecnologia para a fabricação de uma bateria completa de íons de lítio utilizando lignina como ligante nos dois eletrodos. A pesquisa foi publicada em 2 de outubro de 2026 na revista internacional Electrochimica Acta.

O estudo reuniu pesquisadores da UFV, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Shanghai University, na China. A pesquisa foi coordenada pelo professor Reinaldo Teófilo, do Laboratório de Química Aplicada do Departamento de Química da UFV. Igor Gonçalves é o primeiro autor do trabalho e foi orientado pelo professor.

A lignina é um biopolímero natural, renovável e presente na estrutura das plantas. O material é produzido em grandes quantidades como subproduto da indústria de celulose e papel. Atualmente, parte da lignina é utilizada pelas próprias fábricas para geração de energia.

Na pesquisa, os cientistas dissolveram a lignina em água e utilizaram o material como ligante no ânodo de grafite e no cátodo de fosfato de ferro e lítio (LiFePO4). O ligante atua na união das partículas responsáveis pelo armazenamento de energia e na adesão dessas partículas ao metal que conduz a corrente elétrica.

Um dos materiais de referência utilizados no estudo foi o fluoreto de polivinilideno (PVDF), um ligante empregado pela indústria. Sua aplicação geralmente depende do solvente orgânico NMP, que exige cuidados relacionados ao meio ambiente e à saúde e também aumenta a complexidade da fabricação dos eletrodos.

Uma das amostras de lignina passou por tratamento hidrotérmico com água, calor e pressão. O procedimento modificou a estrutura do material e buscou melhorar sua interação com os componentes dos eletrodos.

Segundo os pesquisadores, estudos anteriores já haviam demonstrado a utilização da lignina como ligante no cátodo. O trabalho realizado na UFV avançou para a montagem de uma célula completa de íons de lítio, com o material utilizado simultaneamente como ligante no ânodo e no cátodo.

Os testes também utilizaram uma configuração com três eletrodos, permitindo acompanhar separadamente o comportamento do ânodo e do cátodo durante os ciclos de carga e descarga.

No cátodo, a perda de capacidade após 200 ciclos foi de 18,2% com a lignina modificada. No eletrodo produzido com PVDF, a perda foi de 22,2%. No ânodo de grafite, os ligantes de lignina apresentaram capacidades próximas às obtidas com PVDF.

Na bateria completa, montada com lignina modificada nos dois eletrodos, o sistema permaneceu estável durante 300 ciclos de carga e descarga. Após uma etapa de pré-litiação do ânodo, a bateria manteve aproximadamente 94,3% de sua capacidade ao final do teste.

Os experimentos foram realizados em células do tipo moeda, utilizadas em pesquisas e no desenvolvimento de baterias. De acordo com os pesquisadores, os resultados fornecem uma base para novos estudos relacionados ao escalonamento da tecnologia e à avaliação de baterias em formatos maiores.

Além do uso de uma matéria-prima renovável, a pesquisa avaliou o processamento dos eletrodos em meio aquoso, substituindo o uso do solvente orgânico NMP. A lignina também apresenta potencial para reduzir custos em relação ao PVDF.

A pesquisa utilizou lignina obtida por meio de uma parceria com o Departamento de Engenharia Florestal da UFV. O trabalho também contou com apoio da Fapemig, da Finep e da Capes.

Além de Igor Gonçalves e Reinaldo Teófilo, assinam o artigo Helder Oliveira Filho, Paulo Ortega, Iara Demuner, Hudson Zanin, Joaquim Mendes e Yufeng Zhao.

A tecnologia estudada pode ter aplicações em dispositivos que utilizam baterias de íons de lítio, como celulares, tablets, computadores portáteis, veículos e bicicletas elétricas.

Informações: UFV