Estudo da UFV projeta perda de mais de 75% da área climaticamente adequada para 19 das 26 espécies analisadas até 2090
Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV) aponta que 73% das espécies de árvores prioritárias para conservação na Bacia do Rio Doce podem perder mais de 75% das áreas com condições climáticas adequadas para seu desenvolvimento até 2090.
A pesquisa foi publicada em agosto na revista Biodiversity and Conservation. O trabalho considera os efeitos combinados do histórico de desmatamento, da fragmentação florestal, dos impactos do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, em 2015, e das mudanças climáticas sobre a biodiversidade da região.
O levantamento analisou 26 espécies de árvores consideradas prioritárias para conservação. Segundo os resultados, 19 delas podem perder mais de três quartos da área climaticamente adequada até o final do século.
Entre as espécies apontadas estão o ipê-preto (Handroanthus arianeae) e a peroba-candeia (Grazielodendron rio-docensis), que, conforme o estudo, apresentam risco elevado de extinção local.
A pesquisa foi desenvolvida por integrantes do Laboratório de Ecologia e Evolução de Plantas, do Departamento de Biologia Vegetal da UFV. O trabalho teve orientação do professor João Augusto Alves Meira Neto, coordenador do laboratório.
De acordo com a doutoranda Cecília Loren Silva, primeira autora do estudo, a Bacia do Rio Doce já apresenta impactos relacionados ao avanço das pastagens, à mineração e ao rompimento da barragem de Fundão. Segundo ela, as mudanças climáticas representam uma nova ameaça às espécies arbóreas nativas.
A pesquisadora também explica que estudos sobre os efeitos das mudanças climáticas na distribuição das plantas costumam trabalhar com escalas continentais ou nacionais. A pesquisa realizada na Bacia do Rio Doce utilizou dados com maior resolução espacial.
Como o estudo foi realizado
Os pesquisadores reuniram registros públicos de ocorrência das espécies e informações obtidas em inventários florestais realizados em 22 fragmentos da Bacia do Rio Doce.
Os dados foram cruzados com informações sobre temperatura, precipitação, relevo e solo. A equipe utilizou algoritmos de modelagem computacional para projetar as condições de desenvolvimento das espécies diante de diferentes cenários de emissão de gases de efeito estufa.
As projeções consideraram os anos de 2050 e 2090, com base nos cenários elaborados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
Os mapas produzidos foram comparados com o uso atual do solo na bacia. O objetivo foi identificar a possível perda de áreas adequadas para cada espécie.
Unidades de conservação
O estudo também avaliou a relação entre as áreas projetadas como adequadas para as espécies e os limites atuais das unidades de conservação.
Segundo os pesquisadores, a rede existente de áreas protegidas não será suficiente para resguardar as espécies no longo prazo. A maior parte dos territórios que devem manter condições climáticas favoráveis está localizada fora dos limites das reservas.
A análise identificou ainda o extremo leste da Bacia do Rio Doce como uma área que deve concentrar os refúgios climáticos mais estáveis para as espécies estudadas.
Os autores avaliam que os mapas e projeções podem auxiliar órgãos ambientais, gestores públicos e instituições envolvidas nas ações de reparação da Bacia do Rio Doce.
A proposta é utilizar as informações para orientar projetos de restauração florestal e a criação de novas áreas protegidas, priorizando locais que devem manter condições climáticas adequadas para as espécies nas próximas décadas.
Informações: UFV

