Forma assintomática do acidente vascular cerebral costuma ser identificada em exames de imagem e reforça a importância do controle dos fatores de risco.
O acidente vascular cerebral (AVC) continua entre as principais causas de morte no Brasil e também pode ocorrer sem apresentar os sinais mais conhecidos da doença. Chamado de AVC silencioso ou infarto cerebral assintomático, esse tipo de lesão pode passar despercebido no momento em que acontece, mas está associado ao aumento do risco de comprometimento cognitivo e demência ao longo dos anos.
Dados do Portal da Transparência do Registro Civil apontam que o Brasil registrou uma morte por AVC a cada seis minutos entre janeiro e outubro de 2025. No período, foram contabilizados 64.471 óbitos, colocando a doença à frente do infarto agudo do miocárdio no critério de letalidade.
Enquanto o AVC convencional costuma provocar sintomas como fraqueza em um lado do corpo, dificuldade para falar e alteração na face, o AVC silencioso não apresenta manifestações clínicas evidentes. Segundo a neurologista Thaís Aparecida Reis Lage Nunes, do Hospital Risoleta Tolentino Neves (HRTN), esse tipo de lesão ocorre por alterações na circulação cerebral, mas não provoca os sinais clássicos da doença.
De acordo com o neurologista e professor da Afya Educação Médica Belo Horizonte, Philipe Marques da Cunha, o diagnóstico geralmente ocorre de forma incidental. Em muitos casos, a alteração é identificada durante exames de ressonância magnética solicitados por outros motivos, como investigação de dores de cabeça, tonturas, quedas ou alterações cognitivas.
Os especialistas informam que não há recomendação para realizar exames de imagem de forma preventiva em toda a população. A avaliação deve considerar o perfil individual de cada paciente. O controle da pressão arterial, do diabetes e do colesterol permanece como a principal estratégia de prevenção.
Embora cada lesão isolada seja pequena, episódios repetidos podem comprometer as conexões cerebrais ao longo do tempo. Esse acúmulo pode favorecer o desenvolvimento da demência vascular, considerada atualmente a segunda principal causa de demência no mundo, atrás apenas da doença de Alzheimer.
Os especialistas também diferenciam o AVC silencioso da angiopatia amiloide cerebral. Enquanto o AVC silencioso está relacionado à doença dos pequenos vasos do cérebro, a angiopatia envolve o depósito da proteína beta-amiloide nas paredes dos vasos sanguíneos, aumentando o risco de hemorragias cerebrais, principalmente em idosos.
Os sinais associados ao AVC silencioso costumam surgir de forma gradual. Esquecimentos frequentes, dificuldade de concentração, lentidão para realizar atividades habituais, perda de iniciativa e dificuldades para organizar tarefas podem indicar alterações que merecem avaliação médica.
Após a ocorrência da lesão, o dano cerebral tende a ser permanente. No entanto, os especialistas afirmam que é possível reduzir o risco de novos episódios por meio do controle dos fatores de risco. Entre eles estão hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, obesidade, sedentarismo, tabagismo, consumo excessivo de álcool, distúrbios do sono e arritmias cardíacas.
O perfil dos pacientes com AVC também tem mudado. Segundo os especialistas, mais de 60% dos casos registrados no Brasil ocorrem em pessoas com menos de 70 anos, e 16% atingem indivíduos com menos de 50 anos. O aumento está associado à maior presença de fatores de risco entre adultos mais jovens, como hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo e consumo de álcool.
Além desses fatores, problemas cardíacos, doenças autoimunes, dissecção de artérias, uso de drogas ilícitas e estresse também podem contribuir para a ocorrência de AVC em pessoas mais jovens. Para os neurologistas, a prevenção deve começar ainda na vida adulta, com acompanhamento dos fatores de risco e adoção de medidas para reduzir a possibilidade de eventos cerebrovasculares.
Fonte: O Tempo
