terça-feira, 25 de agosto de 2026
Urgente

Violência contra médicos cresce 68% em uma década e coloca saúde mental dos profissionais em debate

Violência contra médicos cresce 68% em uma década e coloca saúde mental dos profissionais em debate

Em 2024, foram registrados 4.562 boletins de ocorrência relacionados a episódios de violência contra médicos; Minas Gerais ocupou a terceira posição entre os estados com mais registros

A violência contra médicos aumentou 68% na última década, segundo levantamento do Conselho Federal de Medicina (CFM). Em 2024, foram registrados 4.562 boletins de ocorrência relacionados a episódios de violência contra profissionais da categoria. O número corresponde a cerca de 12 casos por dia, ou um registro a cada duas horas.

Segundo o CFM, o total de 2024 foi o maior da série histórica analisada. Entre os registros, 256, equivalentes a 6% do total, envolveram calúnia, injúria, difamação e ameaças praticadas contra médicos pela internet, em redes sociais ou aplicativos de mensagens.

Desde 2013, o CFM contabilizou quase 40 mil boletins de ocorrência envolvendo médicos vítimas de ameaça, injúria, desacato, lesão corporal, difamação, furto e outros crimes em ambientes de saúde.

Em 2024, São Paulo concentrou 832 boletins de ocorrência, seguido pelo Paraná, com 767 casos. Minas Gerais ocupou a terceira posição entre os estados com maior número de registros.

O médico e professor de psiquiatria da Afya Faculdade de Medicina de Itajubá, Jorge Tostes, afirma que a exposição frequente a ameaças, agressões e situações de violência pode afetar a saúde mental dos profissionais no curto, médio e longo prazo.

Segundo o psiquiatra, o estresse e o trauma podem contribuir para o burnout, além de provocar irritabilidade, alterações emocionais e distanciamento nas relações pessoais e com pacientes. O estresse crônico, a sensação de vulnerabilidade e a ansiedade também podem estar relacionados a transtornos como depressão e ao abuso de álcool, drogas e medicamentos.

O estudo “Qualidade de Vida dos Médicos”, divulgado pela Afya em 2025, apontou que 45% dos médicos apresentam algum transtorno de saúde mental. Cerca de 40% dos participantes declararam diagnóstico de ansiedade, enquanto 23,3% relataram sintomas nos 12 meses anteriores à pesquisa. O levantamento também mostrou que 58,2% já vivenciaram algum grau de esgotamento relacionado ao trabalho.

Tostes destaca que serviços como prontos-socorros já apresentam níveis elevados de estresse. A lotação, a falta de profissionais e a escassez de recursos podem aumentar a sensação de pressão e insegurança.

Entre os sinais de alerta citados pelo médico estão irritabilidade, reações de raiva, desatenção, erros em situações simples, distanciamento emocional, sentimentos de inutilidade ou culpa, cansaço constante e sono inadequado.

Projeto prevê aumento de penas

No mês passado, o Senado Federal aprovou o Projeto de Lei nº 2.672/2025, que prevê o aumento das penas para crimes cometidos contra profissionais da saúde e da educação durante o exercício da função ou em razão dela. Como os senadores alteraram o texto, a proposta retornará à Câmara dos Deputados para nova análise.

A advogada e coordenadora de Direito da Afya Sete Lagoas, Tereza Cristina Sader Vilar, informa que o projeto prevê mudanças nas penas para crimes como lesão corporal, ameaça, crimes contra a honra, constrangimento ilegal, incitação ao crime e desacato.

O texto também prevê mudanças para casos de homicídio e lesão corporal grave ou seguida de morte contra profissionais da saúde. Nas circunstâncias previstas, os crimes poderão receber tratamento de crimes hediondos.

Segundo a advogada, o aumento das penas não substitui políticas de segurança, prevenção e gestão de conflitos nos estabelecimentos de saúde.

Em casos de ameaça, agressão ou ofensa virtual, a orientação é preservar as provas. O profissional deve guardar mensagens, links, vídeos, áudios, nomes de usuários, datas e horários, além de fazer capturas de tela.

Em caso de agressão física, a recomendação é procurar atendimento médico, documentar a lesão e registrar o boletim de ocorrência. A orientação também é evitar discussões públicas com o agressor e recorrer aos canais responsáveis pela investigação e responsabilização.

Informações: Matheus Garcia

Foto: Magnific