Pesquisa publicada em revista científica aponta avanço de ameaças no entorno do Vale do Javari e sugere criação de zonas de amortecimento
Um estudo publicado na revista Nature Sustainability reúne pesquisadores brasileiros e internacionais e o líder indígena Beto Marubo para alertar sobre o avanço de ameaças socioambientais às Terras Indígenas da Amazônia. O trabalho destaca o Vale do Javari, no oeste do Amazonas, região com a maior concentração conhecida de povos indígenas em isolamento voluntário no mundo.
O território abriga cinco povos com contato com a sociedade — Marubo, Mayoruna, Matis, Kanamari e Kulina —, dois povos de contato recente — Korubo e Tsohóm-Djapá — e ao menos 14 grupos em isolamento voluntário. A área foi demarcada em 2001 e ganhou projeção internacional em 2022 após os assassinatos do jornalista Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira.
Entre os coautores estão a professora Hewlley Acioli Imbuzeiro, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), e a doutoranda Erin Koster, da University of South Alabama, atualmente vinculada ao Grupo de Pesquisa em Micrometeorologia da UFV. Segundo as pesquisadoras, o estudo identifica que o enfraquecimento da fiscalização e mudanças nas leis de proteção, somados a invasões ligadas à mineração, ao tráfico de animais e à exploração ilegal de madeira e pesca, afetam a integridade dos povos indígenas.
O levantamento aponta que, apesar da estabilidade da cobertura florestal dentro da terra indígena, o desmatamento avançou no entorno. Em 2022, a perda florestal em uma faixa de até 200 quilômetros ao redor do território foi cerca de 187,5 vezes maior do que dentro da área demarcada. Dados do MapBiomas indicam que a taxa média anual de desmatamento foi 33,4 vezes maior nessa zona externa.
Embora tenha ocorrido redução em 2023 e 2024, os níveis permaneceram acima dos registrados na década anterior. Diante desse cenário, os autores defendem a criação de proteção legal para zonas de amortecimento no entorno das terras indígenas, com o objetivo de limitar atividades humanas e conter ações ilegais.
O estudo também recomenda o fortalecimento da fiscalização e o combate à ocupação irregular de terras públicas próximas às áreas indígenas. No Vale do Javari, a prioridade indicada é conter novas ocupações e práticas como caça comercial e pesca predatória.
Segundo os autores, essa proteção é relevante para povos em isolamento voluntário, que enfrentam dificuldades para comunicar invasões. O artigo também destaca a importância de cooperação entre Brasil, Colômbia e Peru, devido à localização da região em área de fronteira.
A pesquisa evidencia ainda a atuação da UFV em parcerias internacionais. De acordo com a professora Hewlley, a participação de pesquisadores estrangeiros está associada a iniciativas de internacionalização da universidade e à atuação de grupos de pesquisa em diferentes regiões do país.

Informações: UFV
Foto: Gabriel de Oliveira & Erin Koster / Acervo Pesquisadores
