Diretora executiva do Parque Tecnológico de Viçosa apresentou, na França, um modelo que explica como o conhecimento da universidade chega ao produtor rural
O ecossistema de inovação de Viçosa foi apresentado a especialistas de vários países durante a 43ª Conferência Mundial da IASP (International Association of Science Parks and Areas of Innovation), realizada em Sophia Antipolis, na França. Na quarta-feira (28), a diretora executiva do Parque Tecnológico de Viçosa (tecnoPARQ), professora Adriana Ferreira de Faria, mostrou como a Universidade Federal de Viçosa (UFV) e o parque transformam pesquisa científica em soluções para o campo.
O artigo “Institutional Mediation and Technological Transformation in Agri-Food Systems: A Practitioner-Based Model of Regional Innovation Ecosystems” foi apresentado na sessão “Feeding the future – Innovation for sustainable and inclusive food systems”, dedicada à inovação para sistemas alimentares sustentáveis e inclusivos. Segundo o tecnoPARQ, o modelo de Viçosa foi apontado no evento como referência para economias emergentes do chamado Sul Global.
A participação já era aguardada: o tecnoPARQ teve sete trabalhos aceitos na conferência, que ocorre de 27 a 30 de outubro e reúne gestores de parques científicos e tecnológicos de todo o mundo.

Por que inovar no agro é diferente
O estudo parte de uma constatação: levar tecnologia ao setor agroalimentar é mais complexo do que em outros segmentos, como o de software. O trabalho aponta três motivos principais:
- Território e clima: uma tecnologia agrícola precisa ser testada e validada nas condições locais, o que impede a simples importação de soluções prontas;
- Ciclos biológicos: os testes dependem do calendário das safras, o que torna o desenvolvimento mais lento;
- Diferenças entre produtores: há grande desigualdade de renda, escolaridade, infraestrutura e conectividade no meio rural, o que exige caminhos adaptados para a transferência de tecnologia.
Diante dessas barreiras, o artigo sustenta que a produção científica isolada e o modelo clássico da Tríplice Hélice (universidade, empresa e governo) não bastam em países emergentes. A proposta é um modelo construído a partir da prática da gestão do tecnoPARQ e da UFV, que detalha os mecanismos de coordenação, gestão de propriedade intelectual, incubação de empresas e capacitação de produtores necessários para que a inovação chegue de fato à propriedade rural.
O ecossistema de Viçosa em números
O modelo apresentado na França organiza o ecossistema regional em cinco dimensões que se retroalimentam. Os dados constam do material divulgado pelo tecnoPARQ:
- Conhecimento científico (UFV): a universidade tem 41 programas de pós-graduação stricto sensu, 10 deles com nota máxima (7) da Capes, com destaque para Zootecnia e Fitopatologia. O material cita ainda a UFV como 2ª do Brasil e 50ª do mundo em Ciências Agrárias;
- Propriedade intelectual (NIT-UFV): em 2023, o Núcleo de Inovação Tecnológica registrou 41 pedidos de patente, firmou 226 contratos, arrecadou R$ 179 mil em royalties e gerenciou R$ 1,8 milhão em projetos de pesquisa e inovação com recursos externos;
- Incubação e desenvolvimento (tecnoPARQ): também em 2023, o parque apoiou 168 negócios de base tecnológica, sendo 76 startups. As empresas vinculadas faturaram cerca de R$ 79 milhões, geraram mais de 850 empregos qualificados, capacitaram mais de 1.300 pessoas e movimentaram mais de R$ 3 milhões em transferência de tecnologia;
- Difusão no campo (Sistema Faemg/Senar-MG): a extensão rural leva a tecnologia ao produtor. Em 2020, foram 9.832 propriedades atendidas e 143 mil participantes em 294 mil horas de capacitação. Hoje, a entidade capacita cerca de 200 mil pessoas por ano em todos os municípios mineiros;
- Governança e retorno: as dificuldades e os resultados observados no campo voltam para o tecnoPARQ, o NIT e a UFV, o que ajusta a agenda de pesquisa às demandas reais da sociedade.
Impactos para o produtor, o governo e a universidade
De acordo com o trabalho, arranjos regionais desse tipo trazem benefícios em várias frentes. Para produtores e empresas, reduzem as barreiras de adoção de tecnologia e permitem validar soluções em ambiente real, incluindo pequenos e médios produtores. Para o poder público, oferecem dados para desenhar políticas de inovação regional e diminuir desigualdades no acesso à tecnologia no meio rural.
Para as universidades, o modelo valoriza a pesquisa aplicada e amplia a arrecadação própria com licenciamento e royalties. Em escala nacional e global, o estudo associa a proposta à segurança alimentar, à produtividade sustentável do agronegócio e à resposta às mudanças climáticas.
Na avaliação do tecnoPARQ, a apresentação na IASP reforça o papel do parque como ponte entre a excelência acadêmica da UFV e soluções que chegam ao produtor rural, com geração de negócios e empregos qualificados em Viçosa.
Com informações do Centev/UFV.

